4.1.07

 

A Propósito da Edição de Mais Um Livro do Dr. José Pedro Machado

Transcrevo a seguir a alocução hoje proferida na Livraria Portugal, pelo autor deste blogue, a propósito da edição do 5º volume da obra «Factos, Pessoas e Livros».

Homenagem da Livraria Portugal e da Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial Afonso Domingues ao Dr. José Pedro Machado, na apresentação do 5º volume da obra «Factos, Pessoas e Livros», em 4 de Janeiro de 2007, na sede da Livraria, em Lisboa, na Rua do Carmo, 70.


A razão que nos traz aqui hoje é simples, mas muito cara de todos : evocar o nome e a obra do Dr. José Pedro Machado, insigne figura de Professor e Académico, Cidadão de méritos invulgares, que nós tivemos o privilégio de conhecer e apreciar, nas diversas actividades a que ele se entregou no decurso da sua vida, felizmente dilatada e notavelmente fecunda.

Como antigo discípulo de José Pedro Machado e como membro da Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial Afonso Domingues, aqui igualmente representada por elementos da sua Direcção, sinto-me naturalmente muito honrado em poder associar-me a esta singela homenagem, com que a Livraria Portugal e a nossa Associação quiseram assinalar a publicação do 5º volume da obra «Factos, Pessoas e Livros».

Aqui mesmo, nesta casa, que foi também a de José Pedro Machado durante mais de cinco décadas de contínua e profícua colaboração, em boa hora solicitada por Henrique Pinto, fundador e grande impulsionador da Livraria Portugal, já se fizeram homenagens a José Pedro Machado, ilustradas por comunicações de nomes relevantes da Cultura Portuguesa.

Basta que nos lembremos da que assinalou os 40 anos da vida intelectual pública de JPM, em 1979, de que nos ficaram textos brilhantes, com elogios inteiramente merecidos às múltiplas actividades culturais a que JPM se dedicava, praticamente desde que saiu da Universidade ou mesmo antes disso, desde quando era ainda Estudante, aplicado sempre, e já com alguns créditos conquistados entre os seus Mestres.

Algumas das peças alusivas a essa homenagem, tive a oportunidade de as ler recentemente, por gentileza da Livraria Portugal, na pessoa do nosso comum amigo, o Sr. Joaquim, que as procurou no arquivo da Livraria e depois mas facultou.

Lá estão depoimentos importantes, sinceros, verdadeiros e de fino recorte literário, exarados por académicos eminentes das nossas mais antigas Academias : a da História e a das Ciências de Lisboa. De entre esses depoimentos, permitam-me, no entanto, que destaque o do Dr. Alberto Iria, confrade e comprovinciano de José Pedro Machado, pelo exaustivo levantamento que ele fez da bibliografia do homenageado, já então numerosa, e que muito haveria ainda de crescer.

Quando, há cerca de ano e meio, comecei a coligir elementos para a minha modesta nota bio-bibliográfica de JPM, infelizmente, desconhecia esse trabalho do Dr. Alberto Iria e não pude aproveitar elementos importantes que nele se encontram. Socorri-me então dos registos incluídos nos primeiros volumes da obra de JPM «Factos, Pessoas e Livros» e de mais alguns elementos dispersos que logrei apurar, quer da bibliografia, quer da biografia de JPM, como sabem, estes últimos são notoriamente escassos, até pela proverbial modéstia de JPM que raramente o levava a falar de si.

Curiosamente, só em alguns dos seus últimos livros vindos a público pela feliz iniciativa da Editorial Notícias, ligada ao que julgo, ao Diário de Notícias, jornal em que JPM manteve durante vários anos, já na década de 90, interessantíssima coluna sobre a sua dama excelsa, a Língua Portuguesa, começaram a aparecer certos elementos biográficos, quando JPM descrevia episódios em que intervieram figuras relevantes da Cultura Portuguesa e Brasileira com quem ele se relacionara, como discípulo, depois colega e confrade.

Em dois desses últimos livros editados pela Editorial Notícias : Ensaios Literários e Linguísticos, de 1995 e Ensaios Histórico-Linguísticos, de 1996, surgem finalmente referências a factos da vida privada de JPM, ainda assim parcas e só pela relação que tiveram com outros factos que ele reputou interessantes ou com pessoas que lhe mereceram particular consideração.

Em Maio de 2005, quando decidi escrever o meu primeiro artigo sobre JPM, na sequência de uma carta que ele me dirigira, no âmbito da nossa velha amizade, como que pressentira o perigo de um desfecho trágico, quer pela sua avançada idade, quer pelas suas mais que habituais lamentações e queixumes de falta de saúde e de energia para continuar a corresponder a diversas solicitações.

Nessa altura, já restringira os seus compromissos à elaboração do artigo mensal para o Boletim dos Serviços Bibliográficos da Livraria Portugal, que escrupulosamente quereria manter, até como forma de continuar a assumir a sua participação cívica, ainda que dentro das reais possibilidades dos seus 90 anos. Com efeito, o último artigo que encerra este agora saído 5º volume de «Factos, Pessoas e Livros» respeita a Maio de 2005, ou seja, a dois meses antes da data da sua morte.

Pode assim dizer-se que JPM trabalhou até quase aos derradeiros dias da sua vida, uma vida extensa e rica de contributos para a Cultura Portuguesa, como já referi e como, modestamente, procurei salientar na nota bio-bibliográfica que redigi há mais de um ano, depois de ter aguardado da nossa Comunicação Social, algo de mais completo e preciso do que as magras e inexactas notícias que nela pude colher após a sua morte.

Que eu saiba, com as excepções do Centro Nacional de Cultura, que publicou uma nota breve mas equilibrada e correcta nos dados referentes a JPM, e da Academia Portuguesa da História, que, em 11 de Outubro de 2006, realizou uma sessão especial em sua memória, depois de, já no final de 2004, lhe haver promovido significativa homenagem, pela passagem do seu 90º aniversário, tudo o resto, Instituições e Comunicação Social, se destacou pela omissão, pela inexactidão e pela escassa relevância noticiosa com que o desaparecimento deste notável cidadão de dois séculos foi tratado.

Por desconhecimento da valia da pessoa em causa ou por desatenção cultural isso aconteceu. Pode e deve chocar-nos a brutalidade do facto, numa época em que tanto relevo vemos dar a ninharias, falsos valores e falsos ícones da nossa sociedade. Por isso mesmo, urge dar a conhecer aos Portugueses o nome, a obra e o nobre exemplo de cidadão de José Pedro Machado. Desde o seu falecimento que a Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial Afonso Domingues tem desenvolvido esforços nesse sentido.

Entretanto, ao terminar o Ano da Graça de 2006, eis que nos sobreveio uma comovente alegria : a de termos visto finalmente editado o tomo v da obra «Factos, Pessoas e Livros» do Prof. José Pedro Machado, com mais uma valiosa colectânea de artigos seus, escritos entre 1991 e Maio de 2005, ou seja, até dois meses antes da sua morte.

Para a sua publicação, um pequeno grupo de pessoas suas amigas se empenharam denodadamente, com destaque especial, para a direcção da AAAEIAD – Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial Afonso Domingues, que buscou e obteve os patrocínios necessários à edição do livro e para a Livraria Portugal, depositária dos originais do Professor, que sozinha havia editado os quatro anteriores volumes da obra.

Obra sem dúvida singular, no panorama livreiro do país, quer pelos temas nela tratados, quer, ainda mais, pelo longo período a que respeita, nela ficou assim reunida toda a colaboração que aquele preclaro Académico prestou no Boletim dos Serviços Bibliográficos da referida Livraria, desde o ano de 1953 até Maio de 2005.

Felizmente, todos os óbices foram removidos, incluindo os da revisão tipográfica, feita por esforços de amadores, no real sentido do termo, para suprir deficiências e anomalias numerosas, típicas destes trabalhos de edição. Mesmo assim, ainda algumas gralhas, poucas e sem influência na compreensão dos textos, passaram ao crivo desses diligentes esforços.

Serão naturalmente corrigidas em futuras edições, de acordo com aquele sagrado princípio em razão do qual se considera não haver outra solução para o erro senão a sua correcção, tão pronta quanto possível, ainda que, sobre o dito erro, possam aduzir-se as mais atendíveis justificações ou atenuantes. De resto, era esta mesma a doutrina preconizada e praticada pelo nosso saudoso Mestre.

Durante 52 anos, ininterruptamente, todos os meses, José Pedro Machado ali colocava, no referido Boletim, um artigo seu sobre Factos, Pessoas ou Livros que, no seu douto entender, mereceriam relevo, atenção ou leitura meditada, com realce para efemérides de nomes, factos ou obras de alto significado para a Cultura Portuguesa, embora também lá surgissem notas sobre temas da História ou das Letras Universais, da antiguidade oriental, da cultura greco-latina, mas também do Renascimento e do Romantismo, de outras épocas, correntes e estilos, da História à Literatura, à Filosofia, à Filologia, à Mitologia, à Toponímia, à Antroponímia, etc., etc.

Na verdade, ali se nos depara um conjunto vasto de temas que a sua enorme erudição lhe permitia tratar, com sínteses admiráveis, pela exactidão e pela concisão, duas características sempre perseguidas por quem pretende escrever com correcção e com clareza.

Neste último volume, até lá fui encontrar um artigo, de Junho de 1991, dedicado aos 200 anos do Sistema Métrico, empenho louvável de um grupo de sábios do tempo da Revolução Francesa, em que se incluíam os nomes prestigiados de Condorcet, Borda, Lagrange, Laplace e Monge, como refere JPM, no seu oportuno texto evocativo da efeméride.

Tudo ali era escrito numa prosa singela, escorreita, sem alarde de nenhuma espécie, porque este Mestre cultivava, em extremo, a simplicidade, a clareza e a objectividade, afinal atributos supremos da escrita que se quer universal, só acessíveis a poucos, aos que duramente persistem em laborar, sem desfalecimentos, nesta árdua faina das Letras, ainda que tenham nascido com inequívoca vocação literária.

Tudo isto JPM fazia, com escrupuloso zelo, a par dos múltiplos compromissos que assumia, sem beneficiar de bolsas, de licenças sabáticas ou de outras legítimas facilidades.

Cumprido este desiderato da edição do presente livro, falta-nos agora meter ombros à tarefa seguinte, que é a de reeditar os outros 4 volumes da obra, que só estarão disponíveis, eventualmente, em raras Bibliotecas ou em Alfarrabistas criteriosos.

Registe-se que estes livros eram e são distribuídos gratuitamente pela Livraria Portugal entre os seus mais antigos clientes e enviados a Estabelecimentos de Ensino, em Portugal e no Estrangeiro, como forma de difundir elementos da Cultura Portuguesa.

É, sem dúvida, numerosa a bibliografia de José Pedro Machado, de que já em vários artigos procurei dar conta. Permanecem, todavia, por recolher, identificar e agrupar muitos trabalhos que se acham dispersos por Revistas Culturais e por variados órgãos da imprensa nacional e regional.

Como Associação, de vocação também cultural, tudo continuaremos a fazer para divulgar o nome e a obra deste ínclito Português, de quem certamente se poderia dizer, com propriedade, que nada do que é humano lhe era estranho, à semelhança da sentença atribuída a Terêncio, famoso poeta latino do século II a.C.

Dos objectivos que nos propusemos alcançar, este, o da edição em livro dos últimos artigos escritos por JPM, é apenas o primeiro a ser atingido, porventura o mais fácil. Entre os restantes, figura o da atribuição do seu nome a uma rua de Lisboa, pedido já formulado à Câmara Municipal de Lisboa, aparentemente aceite, mas que aguarda despacho final.

Só pelos trabalhos que José Pedro Machado assinou sobre toponímia de Lisboa já se justificaria essa distinção, sem falar de outras obras igualmente relacionadas com Lisboa, cidade em que viveu mais de 80 anos como seu filho adoptivo.

Acalentamos ainda, como associação, outros objectivos que a seu tempo divulgaremos.

Em Faro, de onde JPM era natural, já este mencionado objectivo, embora por iniciativa de outrem, foi alcançado, figurando o seu nome honrado numa das artérias principais da capital algarvia. Outras localidades poderiam e deveriam fazer outro tanto, como Sintra, por exemplo, à qual JPM dedicou algum do seu vasto saber, em estudos e investigações que, a seu respeito, empreendeu.

Cumpre-nos prosseguir esta meritória campanha pela dignificação da memória de José Pedro Machado.

Como acima se salientou, num tempo tão escasso de verdadeiros talentos intelectuais e, sobretudo, cívicos, é justo que se procure perpetuar a memória de José Pedro Machado, para culto generalizado do seu alto exemplo de intelectual probo e cidadão sem mácula.

AV_Lisboa, 04 de Janeiro de 2007


PS : A todos os meus leitores, assíduos ou esporádicos, desejo que tenham passado um Natal Feliz, mais próximo da sua figura original, Jesus Cristo, do que da do comercial Pai Natal, com que a despudorada publicidade incessantemente nos pretende alienar, e que o Ano de 2007 possa trazer-nos a todos saúde e bons motivos de alegria, tanto no plano profissional, como no pessoal, no dos afectos, em particular, porque são estes que nos ajudam a viver com maior motivação e a ultrapassar as crises, as dificuldades, sempre presentes, na árdua labuta da vida.

Comments:
Li e reli este artigo. e Hesitei várias vezes até ganhar coragem para o comentar. Tudo porque, lamentavelmente, não conhecia o Dr. José Pedro machado. Claro que fui à NEt pesquisar e, para desgosto meu, quanto mais lia dessa importante figura das Letras Nacionais, mais sentia a dor da minha tremenda ignorância.
Obrigado por este belo artigo.
 
Parabéns ao António Viriato pelo esforço que desde há muito tem vindo a desenvolver para divulgação da obra de José Pedro Machado, que bem merece.
Jorge Oliveira
 
Amigo
Parabenizo-o por mais esta homenagem ao Professor José Pedro Machado.
Agradeço os votos de Feliz Ano Novo e o retribuo; que 2007 seja um ano de paz, com poucas ou sem guerras( seria melhor sem , mas é infelizmente creio que é impossível); mas que o amor possa reinar em nossos corações.
Abraços
Semida
 
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